Dança das Palavras
 


 DE MALAS E CUIAS... ALGUNS TEXTOS ESTÃO INDO NA BAGAGEM, OUTROS ESCORREGARAM E CAÍRAM PELO CAMINHO...

OBRIGADA PELA FREQUÊNCIA AO MEU ESPAÇO TÃO RESERVADO, TÃO ÍNTIMO E PESSOAL!

ACESSE: http://flaviademelo2009.blogspot.com



 Escrito por Flávia Regina Melo às 14h34
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ESTAMOS DE MUDANÇA!

BREVE EM NOVO ENDEREÇO COM MELHORES INSTALAÇÕES!

INAUGURAÇÃO COM COQUETEL DE PALAVRAS, QUEIJOS, VINHOS E EMBRIAGUEZ NA ALMA.

SOMENTE PARA CONVIDADOS VIPS.

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 12h18
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A falência do circo

 

“A maior parte da dinâmica dos relacionamentos não comporta a verdade”, leio, estarrecida, em meu signo, na seção de horóscopo de O Estadão. Mercúrio e Plutão em oposição? Pouco me importa. Divirto-me aqui na platéia e deixo o palco para os exibicionismos daqueles que crêem, firmemente, no triunfo da dissimulação, para os que têm fé na descrença, aos apreciadores de grandes espetáculos com direito a cortina de fumaça na estréia e em todos os atos. Fumaças e escuridão: toda boate tem um fundo de verdade!, canta a irreverente Ana Carolina.

Da página de horóscopo (oscilar entre os extremos, uns dos meus passatempos!) pulo para a reportagem com o escritor argelino Grégoire Bouillier e seu livro sobre o conturbado caso com a artista Sophie Calle, de quem se separou por e-mail, recebendo como resposta diversos vídeos com mensagens que interpretavam o rompimento por meio de performances. Em meio à ruidosa era de discursos eletrônicos, e-mails, torpedos, SMS, twitters, blogs, nada mais atual aos adeptos do estilo fake do que ser virtual e não real! Maria Aparecida Baccega, da Escola Superior de Propaganda e Marketing e livre-docente da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, interpretou, com argúcia, o fenômeno e seu alargamento para o território comportamental: “Palavras tomam lugares em discursos de máscaras. A linguagem então assume o papel de mercadoria. é a sociedade das aparências”.

         A fórmula é fácil. Inclui embalar conversas em um papel vistoso (quem sabe não estaria aí a origem da expressão papo furado?), jogar para debaixo do tapete as dores e decepções sem a necessária auto-investigação, substituir sentimentos que exigem crescimento pessoal por emoçõezinhas baratas e converter delicadeza em vulgaridade. Na arena dos discursos de máscaras é obviamente mais forte quem sabe mentir. E na lógica perversa dos marqueteiros da felicidade de revista Caras (e de seus bilhetes de viagens, fotos que tentam estancar o tempo e lua-de-mel com vista para o mar) amar é um ato de ingenuidade.

         A série de vídeos que traduziram a mensagem de rompimento de Bouillier a Sophie Calle foi exibida na Bienal de Veneza de 2007. Entre performers, atrizes e bailarinas, havia uma palhaça. Do lado de fora do enquadramento do vídeo, o circo faliu. A palhaça, sem mais função, resolveu aprender a ser trapezista.



 Escrito por Flávia Regina Melo às 20h08
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Dicionário dançarino

 

Ao desfrutar do prazer indescritível de ler a historinha de um reizinho mandão para Luísa, lembrei de minha infância cercada de Monteiro Lobato, Malba Tahan, Casimiro de Abreu e outros escritores tão presentes nos escaninhos da minha memória. As lendas orientais, as artimanhas de Emília do Sítio do Pica Pau Amarelo entravam pelo meu ouvido, passeavam pela minha mente e faziam festa dentro de mim. Ao som da voz de Noca, nossa querida empregada doméstica, com seu hálito rouco de cigarro, eu escutava, maravilhada, palavras aladas que se enroscavam umas nas outras, até formarem um mosaico mágico de personagens e enredos, invadindo minha cabecinha de sonhos e fantasias. Desprovida de maiores recursos intelectuais, Noca foi a minha mestra na arte de ler histórias, acompanhando cada linha do texto com seus dedos negros pintados de esmalte vermelho, cor chamada por ela de “encarnado”. Morávamos numa casa que tinha um quintal de terra, com um pé de mamão e outros arbustos. Lembro da vez em que achei uma pá e resolvi cavar, obstinadamente, na busca desenfreada por um tesouro escondido debaixo da terra. Cavei fundo com a alegria de uma meninice saudável, sem ainda saber que a preciosidade estava mesmo guardada em minha própria fantasia infantil.

Na adolescência, mergulhando no universo drummondiano, encontrei meu espelho em tantos poemas. A melancolia encolhida na alma, a acidez diante do lado indigesto da existência, o erotismo, o tédio avulso nos bolsos das calças, um niilismo que sussurrava baixinho dentro de mim. Depois vieram outros que gritavam alto na alma: Pessoa e seu dessassossego; Neruda, para confeccionar romances e muitos outros em prosa e verso. No quarto de papai e mamãe, escutávamos eu e meus irmãos, os dois conversando sobre construções verbais, desafinando em alguns pontos de vista sobre regência verbal, fazendo cara feia quando cometíamos erros graves ao falar e assim crescíamos, convivendo em meio a provas de redação, trabalhos de alunos e livros didáticos. O privilégio de poder ter em casa os clássicos da Literatura Brasileira, e de outros países, me fazia ler precocemente muitas obras fundamentais ao meu ofício. Sorvi boas safras de livros em prosa e, sobretudo, em poesia. Até tentei alguns versos tolos, tristes, esporádicos. Depois, descobri que podia ser poeta adotando um modo especial de ver a vida.  Mas escolhi a palavra como ferramenta da minha sobrevivência. Meus dois irmãos optaram por caminhos opostos e preferiram ter menos problemas na cabeça: um é contador, Sérgio Alexandre e a caçula, Alessandra, é analista de sistemas.

Há pouco tempo, alguém me disse que eu era sinônimo de Clarice Lispector, provavelmente menos pela alta produção literária e, segundo sua percepção, por um modo de ser denso. A leitura nos alimenta a alma, nos fornece o vigor para ter a densidade necessária de não perceber o mundo de modo superficial. No jogo dos sinônimos que inventei para brincadeiras em grupos, outra pessoa me definiu como um dicionário. Drummond soprou ao meu ouvido: “Palavras somos e entre palavras vivemos, mas com que significado?” Eu quero ser um dicionário dançarino para bailar entre palavras, com leveza e elegância na Dança da Vida.

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 16h48
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Projeto Infinito

Sim, eu tenho desejos maiores. Acredito na Força Suprema do Universo, creio que a existência possui uma finalidade superior, abomino a idéia simplista de que meu destino final aqui na Terra é o de servir para alimentar vermes no caixão. No livro Mosca Azul, guardei comigo a sabedoria poética de Frei Betto, quando ele escreve: “o júbilo do coração quase sempre paga tributo se ainda não descobrimos os vôos do espírito”. Quero o alçar os vôos do espírito e apreciar as paisagens que não podem ser vistas em alguns lugares baixos que ainda insisto em visitar dentro de mim. Quero adotar como princípio pessoal, a assertiva da pintora Frida Khalo: Pés, para que servem? Se tenho asas para voar!  Já paguei meus tributos por não realizar os vôos do meu espírito. Como o deus Hermes, tenho asas nos pés.

A imersão me trouxe de volta os ensinamentos de terapeutas como Roberto Crema, Pierra Weil, Cézar Wagner e outros sobre a crise de fragmentação que atinge a humanidade, resultado da insistência em permanecermos atados às nossas ilusões, aos nossos caprichos, aos nossos quereres (que estão sempre ocultando outros quereres), aos nossos medos e covardias. No livro A Arte de Conhecer a si mesmo, o filósofo Shoppenhauer considera que deveríamos “querer o menos possível e conhecer o mais possível”. Operamos em nós uma perniciosa cisão entre diversos desejos, vontades e, ao invés de nos multiplicarmos, nos fracionamos em pessoas e situações, fragmentando-nos, comprometendo a inteireza do nosso ser.

Formidável estudiosa da política, da filosofia, da educação do século XX, Hanna Arendt considerou: “A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada ao homem”. A vida sempre nos impõe o algo além do que as condições em que vivemos, os desafios que nos são impostos na vida emocional, na vida material, na convivência com o outro.  As "crises do sentido da vida", certos vazios existenciais que nos visitam vez por outra é a existência que começa a requerer um sentido maior (além do puramente material). Judeu como Hanna Arent, um dos maiores gênios da humanidade, o físico Albert Einstein certa vez mencionou a beleza da nossa natureza, afirmando: “Minha condição humana me fascina”. Em um diálogo afim, Leonardo Boff considera: “O ser humano é um projeto infinito” – explicando que “nos recusamos a aceitar a realidade que nos cerca porque somos mais, nos sentimos maiores do que tudo o que nos cerca”. Einstein, Hanna Arendt, Boff: todos enxergaram a imensidão do nosso ser. Quero ser mais do que uma mísera mendiga, catando migalhas de alimentos que não preenchem a imensidão do meu ser. Como Frida Khalo, tenho asas. E lá de cima, a paisagem é um deslumbramento ótico.

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 16h17
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O exercício de bastar-se

  

Vivi, em 2007, a experiência de fazer meu próprio Caminho de Santiago no Brasil. Dez anos antes, recebia o Prêmio Nobel de Literatura, a escritora Doris Lessing, por quem me deslumbrei ao ler, em entrevista ao Jornal do Brasil: “a solidão é um grande luxo”. Ao sair de uma árdua experiência profissional e pessoal, escolhi o luxuoso prazer de ficar só com meus inúmeros amigos interiores, um alento que admito existir na misantropia voluntária a que, frequentemente, me submeto. Drummond, misantropo, tímido e escorpiano, como eu, dizia: “a solidão gera inúmeros companheiros em mim mesmo”.

Escolhi uma cidade que, embora frenética e barulhenta, me fazia há algum tempo ouvir os sons do meu silêncio. Uma metrópole trituradora, moedora, mas que havia me feito, há alguns anos, descobrir a inteireza do meu ser: São Paulo, lugar perfeito para o meu exílio intelectual. Rasguei meu cartão de visitas e fui tentar uma vaga na USP. Aprovada em segundo lugar na seleção de uma pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes (ECA), voltei a calçar tênis, usar mochila nas costas e passei a aguardar, resignadamente, durante uma hora ou mais, no trajeto do ônibus que, bravio, atravessava a tempestade de carros de uma cidade, cuja quantidade de automóveis correspondia ao total da população do meu Estado.

O frio e a cinza paulista faziam afagos na minha solidão necessária - uma velha conhecida minha das fases de preguiça social e da infância franzina em que tantas vezes me sentia como uma mistura de Quasímodo e Dom Casmurro. Durante muitos finais de semana, as únicas vozes no apartamento em que vivia eram do rádio e da televisão, que faziam companhia para a voz estridente dos meus pensamentos. Li, compulsivamente, entusiadamente, Shopenhauer para combinar com o momento, alguns clássicos que adiei durante décadas, Foucault e Barthes, com os quais vivi um triângulo amoroso, além do tórrido caso de amor que mantenho até hoje com as descobertas que a USP me proporcionou: Jesús Martin-Barbero, Nestor Cancline, Clifford Geertz, Stuar Hall, Manuel Castells, Jorge Huego e os outros estudiosos da Educomunicação. Cafés, livros, filmes e terapia me bastavam. Como na fórmula barthesiana: “nada de poder, um pouquinho de saber e o máximo possível de sabor”.

Cheguei até a comprar um girassol, batizado por mim de Soledade. Regava e conversava com Soledade que, insistentemente, buscava nutrir-se dos mínimos raios de sol, entre as frestas dos prédios aglomerados diante da minha sacada. Meses se passavam e ela sobrevivia, na incrível instabilidade climática paulistana. No inverno, Soledade não tinha mais forças e morreu. Voltei para São Luís e quase dois anos depois, só agora o sol começa a brilhar. Faço desta a minha homenagem a Soledade, que me ensinou a insistir em viver, mesmo quando aquilo que nos nutre no momento seja insuficiente.

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 22h47
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Jornalismo para a vida

 

          Na gaveta de meus projetos e sonhos, que contam com a elasticidade desta existência para viabilizá-los, está a crônica Os Jornais, de Rubem Braga, com a frase que alicerça meu ideal futuro: “Os jornais noticiam, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra: a vida”.

          Há quase uma década, tenho me dedicado, de modo apaixonado, a buscar conexões interdisciplinares, entre áreas do conhecimento que evoquem a sacralidade da vida, em seus mais diferentes aspectos, envolvendo temas como: a dignidade, o acesso aos direitos que legitimam a cidadania, a espiritualidade, a afetividade, a humanidade e afins. Como tantos, optei pelo jornalismo pelas mesmas razões românticas daqueles que acreditavam na função social que a atividade jornalística possuía. Do romantismo universitário passei a viver uma paixão não correspondida, nas primeiras experiências práticas, até momentos de enorme desprazer que a promiscuidade entre o Departamento Comercial e o Departamento Jornalístico das redações e emissoras de rádio e TV me causava.  Diria mais: como jornalista e primeira mulher a ocupar o cargo de Secretária de Comunicação do Estado do Maranhão sentia-me estuprada, diariamente, por razões cujos motivos comentarei um dia, de modo mais detalhado.                  

          Fiel ao bom e velho ditado de que “mais vale acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão”, defendo a proposta de que a informação deveria se converter em solução para os problemas sociais. A constatação de que existe uma abordagem reducionista no modelo de jornalismo praticado pela atualidade ratifica a noção de que o modo de informar, quando não caracteriza a notícia como um produto a mais na Indústria, transforma-se em moeda política podre para a compra de consciências lesadas pela falta de Educação, Saúde, Saneamento Básico e outros direitos e garantias fundamentais. A enorme lacuna deixada pela Mídia limita aspectos relacionados a um Desenvolvimento Humano Integral que poderiam estar anexados a cada notícia. Ressalta-se que há muito mais por trás da cada informação sobre homicídios, chacinas, surtos de doenças, catástrofes ecológicas e outros inclusos nos pacotes de problemas da atualidade.

          Como educomunicadora, também faço a defesa inarredável de que a forma de noticiar necessita contribuir para a formação de uma consciência cidadã, solidária, voltada aos direitos humanos e à vida, com a conversão necessária de temas da chamada antigamente de Grande Imprensa em debates, reflexões e possíveis soluções para os problemas da atualidade. Em suma, é possível transformar informações em commodity para elaboração de projetos e soluções aos problemas sociais do País. Ou ainda, conforme a precisão do enunciado do professor Edvaldo Pereira Lima, Doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP), “um jornalismo de transformação. Que trabalha em prol da transformação individual e coletiva.” Para reforça da minha utopia realizável e de todos aqueles que acreditam que uma outra comunicação é possível, transcrevo suas palavras:

 

 “...advogo para a narrativa jornalística de qualidade uma outra atitude. A postura proativa. O jornalismo aberto a esses novos caminhos em que percebemos a realidade não mais sob uma ótica reduzida, centrada apenas num patamar excludentemente racionalista em excesso. Um jornalismo que não fica à mercê do relato passivo dos acontecimentos, mas que percebe o eclodir de tendências e probabilidades, que acompanha a gestação de visões inovadoras, que sai do lugar comum. Que focaliza uma visão complexa, buscando uma compreensão ampla, ajudando o ser humano a encontrar novos significados, auxiliando-o a ampliar seu grau de consciência de si mesmo, do outro, da existência (...)“



 Escrito por Flávia Regina Melo às 23h51
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Estelionato afetivo

 

Só quem já foi vítima de um estelionato afetivo sabe a amplitude da frase da escritora tcheca Monika Zgustova: “Portar máscaras durante longo tempo estraga a pele.” A questão, que envolve vítima e carrasco, presa e caçador, no terreno escorregadio de certas relações afetivas, também desmascara o baile do enredamento emocional. No entanto, na maioria das vezes, tanto o algoz quanto o suposto vitimado utilizam máscaras para esconder suas deformidades, variando entre compulsões, carências, déficit de auto estima, inflamação do ego, neuroses variadas e até psicoses. Provavelmente, a confusão começa com a ideia de que o desejo precisa ser algo fugidio, escorregadio, obscuro, inalcançável, representado no mito de Eros que só se realiza na escuridão da metáfora de um quarto e, após a vela ser acesa, desaparece consolidando sua própria natureza oculta. 

 Para alguns, o estelionato ao qual me refiro, esconde-se sob o falso manto da sedução que não se deixa revelar totalmente – quando, de fato, o que não é mostrado nesse jogo é sua verdadeira face e a contravenção de se alojar no ambiente ambíguo da linguagem, ou um lugar de fala, conforme convencionou classificar Barthes. Em Fragmentos de um discurso amoroso, o genial intelectual constrói enunciações em uma obra que estabelece “o lugar de alguém que fala de si mesmo, apaixonadamente, diante do outro (o objeto amado) que não fala”. Uma variedade formidável de ciladas são descobertas na leitura, como por exemplo, a de que o outro está destinado a um habitat superior no Olimpo, no capítulo sobre Dependência e a elementar constatação no capítulo Por quê?: “Ao mesmo tempo em que se pergunta, obsessivamente, porque não é amado, o sujeito apaixonado vive na crença de que, na verdade, o objeto amado o ama, mas não o diz”. 

Acrescenta-se a essa filosofia fast food a voz rouca de Tom Jobim cantando Lígia, um clássico da contradição amorosa, em que mentiras e verdades dançam como bailarinas vendadas diante de olhos cegos, revelando-se em mágoa, no ato final, com a conversão: “Fiz um samba canção com as mentiras de amor que aprendi com você”. 

Passei algum tempo atrás ouvindo um mantra de Dadá Coelho, jornalista que sobrevive de humor (que nos resta, senão rir da palhaçada que é o comportamento de boa parte da imprensa no Brasil?): “quem ama, viabiliza!”, “quem ama viabiliza!”. Às ouvintes desta rádio, que escrevem pedindo conselhos, só conheço um: para desligar de alguém, é preciso ter a certeza de que o Amor é como o slogan daquela operadora de telefonia móvel: Simples assim!  Sintomas mais fortes ou menos intensos do que a cumplicidade, a ternura apaixonada, a alegre convivência entre desejo e admiração, mulherada, devem ser tratados em divã!

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 21h48
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O povo brasileiro e as placas de ultrapassagem permitida

 

 

Nasci brasileira. Deus deve ter tido lá suas razões para me fazer nascer num país governado por um presidente que se utiliza de metáforas ridículas para descrever as questões nacionais. Com frequência, sinto-me uma inglesa: não furo fila, não falo alto. Sem querer posar de fresca, detesto a cultura dos adeptos do jeitinho brasileiro que, em vez de descambarem para a customização criativa, preferem passar a perna e levar vantagem em tudo. Agem como aquela frase popular de pára-choque de caminhão: “Preguiçoso é como dono de sauna, vive do suor dos outros”. A questão central: onde começa a preguiça e onde terminam as oportunidades ceifadas de tantos dos nossos? Deixo as respostas para os especialistas e incursiono por outra vereda. 

Viver em uma nação que, há séculos, pouco tem feito para tirar seus filhos da merda que é a lacuna educacional é um ultraje. Até cuspiria no meu Malbec, se fosse o caso de contribuir para a solução do problema. Os órgãos oficiais se ufanam de que o Governo Federal estaria aplicando 4,6% do PIB em educação contra 4,4%, de 2006, e a meta é chegar ao patamar de 5% até 2.010. Piada. Há alguns anos, economias com porte semelhante à brasileira, já destinam um percentual bem maior, a exemplo da Coréia do Sul, que destina 7,2% do PIB para a educação. Já o México aloca 6,4% do PIB para a educação.

No entanto, me enternece o modo como a população sofrida metaboliza o entendimento parco das coisas. Aprecio a criatividade espremida daqueles que, mesmo sem a palavra mágica da oportunidade, fazem de um churrasquinho de gato, um exemplo de refinada gastronomia criativa, em um cardápio genuinamente nacional. Recebi, recentemente, da amiga e professora Carime Jadão, especialista em Educação Biocêntrica, uma sequência de fotos de placas e cartazes que só se justificam como sendo resultado de uma maneira nacional de inventar e se adaptar às situações, sem par em nenhum outro país do planeta. Entre os exemplos de frases estão um outdoor de propaganda de motel com o apelo: TRAGA ALGUÉM PARA COMER AQUI (almoço grátis). E ainda: CHURRASQUINHO DO CEARÁ (de gato siamês, criado na ração, nunca comeu rato). Difícil mesmo é ter que escolher entre comer na churrascaria SERVE-SERVE-SE ou na padaria com o sugestivo cartaz: PRECISA-SE (sic) DE CLIENTES. Se o cidadão escapar da morte, no HOSPITAL MATADOURO, pode até alimentar a esperança da crença na vida após a morte na FUNERÁRIA NASCIMENTO. Seríamos muito mais se essa genialidade brasileira, a exemplo de talentos como o conterrâneo maranhense Joãosinho Trinta, recebesse os necessários estímulos e incentivos educacionais e artísticos. Emergindo sempre da podridão de políticos safados, O Brasil é um luxo, conforme demonstrou o carnavalesco Joãosinho Trinta.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 18h48
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Na noite passada sonhei com Chico Buarque, aquele da minha infância com meu pai... aquele anexado em muitas cartas de amor do passado, de traduções presentes, da necessidade de ser ausente, aquele de tantos devaneios etílicos em que, após dezenas de CDs já tocados, alguns fora da rotação das conversas, minha amiga Fernanda Almeida, neta do escritor maranhense Bernando Almeida, costumava dizer: "bota Chico porque não tem risco de errar!". Nesta sexta de maio, poesia e chuva em São Luís, para que o sol volte a brilhar por lá!  

 

"...Prefiro, então, partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente.

Depois de te perder,
Te encontro, com certeza,
Talvez num tempo da delicadeza,
Onde não diremos nada;
Nada aconteceu.
Apenas seguirei
Como encantado ao lado teu..."

Chico Buarque em Todo Sentimento



 Escrito por Flávia Regina Melo às 11h23
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As enchentes e o transbordamento da apatia

 

A indignação, esse tapa nas caras preenchidas pelo botox anestésico da realidade social, é virtude cada vez mais ausente das hordas. Enquanto a intelligentsia equivocada exercita seu diletantismo fashion em artigos indefinidos que atribuem aos brinquedinhos tecnológicos e à questionável globalização, de apologistas curtos como Thomas Friedman e seu torto Mundo Plano, as funções de amaciamento dos conflitos étnicos, econômicos e sociais (ãhã?!???!????), suportamos o soco no estômago que é assistir às cenas de flagelados – agora não das secas, mas das águas. Nada ainda supriu a lacuna deixada por cabras bons como Henfil e Guevara, entre tantos outros que propunham a necessidade de indignar-se. Ao contrário, a maioria prefere permanecer deitada em seus berços esplêndidos e travesseiros de penas de gansos, onde repousam suas cabeças amnésicas. Conforme a lucidez afiada de Mino Carta, “assentam suas consciências no seu próprio bem-estar, e o resto que se moa”.

Recentemente, ouvi o relato de uma publicitária que questionava o fato de os governos disponibilizarem ajuda financeira e redução da carga tributária para instituições financeiras, bancos, montadoras de carros e agora de indústrias de eletrodomésticas, sem planejar-se para as catástrofes que atingem as populações de baixa renda, no caso específico das atingidas pelas recentes enchentes no Norte e Nordeste do Brasil, onde vivo atualmente. Ao ler a biografia Josué de Castro: O Gênio Silenciado, do jornalista Vandeck Santiago, surpreendi-me com a coincidência sobre a proposta surgida na conversa. Josué foi um dos mais brilhantes intelectuais brasileiros, médico, cientista social, homem que “destampou a panela da fome no Brasil” com uma vigorosa produção acadêmica, incluída nela a célebre obra Geografia da Fome, da qual Barbosa Lima Sobrinho resumiu o impacto causado na sociedade da época: “O Brasil tem duas cartas de descobrimento. Uma é a de Pero Vaz de Caminha. A segunda é Geografia da Fome”.

O brasileiro, que chegou a ser comparado a Copérnico, Pasteur e Einstein, em 1952 foi eleito presidente do Conselho Executivo da FAO (Organismo das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura). No comando da FAO propôs a criação de uma reserva internacional para combater a fome, aproveitando excedentes de alimentos dos países desenvolvidos para abastecer as nações que, em razão de desastres ecológicos, guerras ou crises econômicas, sofressem com a escassez de alimentos. A idéia nunca foi colocada em prática por pressões previsíveis dos Estados Unidos de então.

O autor de Homens e Caranguejos, Sete Palmos de Terra e um Caixão e outras obras, e que foi três vezes indicado o Prêmio Nobel, teve suas idéias e seus livros retirados das residências e destruídos pela polícia da Ditadura Militar. Recomenda-se a Luiz Inácio (que segundo contam seus biógrafos, só conheceu um pão aos 7 anos de idade) que leia ou releia alguns dos livros de seu conterrâneo pernambucano, Josué de Castro, o primeiro pesquisador a denunciar “meninos com o bucho estofado de lama” e os adultos que pareciam “bonecos de pano mal costurados” pela fome. A nós, que nos empanturremos de remédios para combater a azia diante do oportunismo dos que se aproveitam das tragédias para engordar suas aparições na mídia e nada resolver. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 17h54
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Fio de Ariadne

 

            Ainda sob efeito de uma pressão que resolveu brincar de alpinista, aproveito as tonturas físicas para elaborações existenciais em torno das sucessivas voltas que damos ao redor das velhas e recorrentes pendências subjetivas. Tratar destas questiúnculas, em meio à enxurrada de informações de maior relevo para os que cultuam o exterior, é uma maneira solitária de descer um degrau a mais nos porões da minha alma. Desprovida do talento de uma sábia milenar, com quem troco textos e dicas literárias, ouso navegar calmamente no meio da imensidão de um oceano revolto de palavras.

           Em minha farmácia de frases, absorvo em doses homeopáticas a afirmação do orador e político grego Demóstenes (384 a 322 a.c.): “é extremamente fácil enganar a si mesmo, pois geralmente o homem acredita naquilo que deseja”. Os que padecem de profundas ulcerações emocionais, inquietações atávicas, intensidades dos quereres, das buscas desenfreadas e de outras enfermidades do gênero, desconhecem o quanto é fácil enganar a si mesmo. A sinuosidade da alma feminina, dada a teceduras sentimentais, é presa fácil das alegorias que se travestem de pequenas alegrias, das miragens em sofisticadas roupagens, dos simulacros de visibilidade estéril. As lacunas que surgem no decorrer da caminhada vão revestindo e despindo as procuras, oscilando ora em encontros, ora em desencontros. Movida pela frequente busca renovadora, pela resignificação transformadora, adoto a formulação lacaniana de que o desejo é sempre o desejo de um outro desejo.   

           O conflito entre o ardor interior de quem se alimenta de buscas frenéticas e a mania feminina de confeccionar sentimentalidades é assunto para muitas horas de divã. No entanto, reflexiono em torno da quase em extinção característica das tecelãs que ainda acreditam na possibilidade de realização da grandeza de um projeto afetivo mais nobre. Muitas usaram do recurso ao qual me refiro. Sherazade, arquétipo da estranha relação entre amor e morte, desenrola seu novelo de histórias para o Sultão, escapa de ser decapitada e vive sob a proteção de uma sedução que dura mil e uma noites. Penélope, para aguardar Ulisses (ou Odisseu) que guerreava em altos mares utilizou um artifício parecido. Para não desagradar o pai, que sugeriu que ela se casasse novamente, resolveu aceitar a corte dos pretendentes com uma condição: casaria somente após terminar de tecer uma colcha. Trabalhava de dia e desfazia a costura de noite para que as vestes nunca ficassem prontas. Ulisses regressou à sua Ítaca natal 20 anos mais tarde.

O mito de Ariadne, porém, é o mais intrigante de todos. Uma metáfora usada, geralmente e equivocadamente, na minha opinião, para descrever a solução de um problema. Filha do rei Minos, ela se apaixona por Teseu, pede a Dédalo, arquiteto do palácio onde vivia o Minotauro a planta do local. Após conhecer o lugar, dá um novelo a Teseu, recomendando que o  desenrolasse a medida que ele entrasse no labirinto para encontrar a saída. Teseu usou essa estratégia: matou o Minotauro e, com a ajuda do fio de Ariadne, encontrou o caminho de volta. Retornando a Atenas levou consigo a princesa. Mas, depois de uma noite de amor, deixou-a na ilha de Naxos e ela nunca mais o viu. Belíssimo roteiro de drama e lição para quem, ao desenovelar ou dedicar tempo precioso à arte de tecer amores, surpreende-se com o resultado final.



 Escrito por Flávia Regina Melo às 18h50
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Equívocos das sociedades das aparências

 

Amplamente explorada pela imprensa nacional, no ano passado, uma nova tendência de comportamento chamada Nadismo. Segundo uma matéria publicada no suplemento dominical de O Globo, já existiam cerca de duas mil pessoas no Brasil, em 2008, adeptas do Nadismo que seria, em suma, uma espécie de filosofia de fazer nada. São os que defendem, arduamente, a tese de que nós precisamos nos dedicar ao culto do fazer nada. Os nadistas chegam a considerar, inclusive, atividades do Nadismo, quando em nossos dias de folga nada temos a fazer. O criador desta tal filosofia chega a retrucar, quando alguém o interrompe em sua dedicação ao Nada: “Agora, não posso, fulando, estou fazendo nada”. Seis bilhões de neurônios para fazermos nada!

O Nadismo é uma espécie de doutrina da mesma estirpe do Hedonismo (do grego hēdonē "prazer", surgido na Grécia, na época pós-socrática) que considera o prazer individual e imediato como o supremo bem da vida humana, a única e possível forma de vida moral, evitando tudo o que possa ser desagradável. Ambas as propostas parecem sugerir que a existência é um grande parque de diversões, uma Disneylândia, com passaporte de acesso a  todos os brinquedos. Acusada de niilista por muitos, divirto-me com a quantidade de Peter Pans modernóides que fogem de si mesmos como bandidos num tiroteio. Essa idiotice toda me lembrou a palestra da psicanalista Maria Rita Khel no seminário Mutações: novas configurações do mundo, realizado em 2007, no Sesc SP. Com tema Depressão e Imagem do novo mundo, Khel confirmou a tese de que “a sociedade do espetáculo nos promete um gozo contínuo”. Até o prazer libertário e necessário à fruição da vida foi coisificado – como diriam os teóricos de Frankfurt. Por mais contraditório que pareça, o mesmo capitalismo que inaugurou a exploração do homem pelo homem exige também o consumo desenfreado de um modo obrigatório de viver para ter prazer. A atualidade pós-industrial estabelece conceitos que incluem o gozo desmedido entre os impositivos da eficiência, do ter que ser bem sucedido.

Edgar Morin, sociólogo francês, intelectual prestigiado, ao se debruçar sobre temas de impacto nas culturas de massa do século XX, considerou que “a desagregação dos valores tradicionais e das grandes transcendências” opera em benefício do que seria essa felicidade delineada equivocadamente. Segundo ele, as duas vertentes da felicidade se completam privilegiando o “instante ideal na projeção imaginária” e o outro que estimula “um hedonismo de todos os instantes na vida vivida”. As cigarras hedonistas ou nadistas só lembram que vieram ao mundo e perderam a viagem, como cantava Cazuza, depois que sobe a ficha técnica do filme da vida. E só então percebem que se transformaram em carolinas, como na canção de Chico Buarque:

 

“...Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, 
nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela

E só Carolina não viu...”



 Escrito por Flávia Regina Melo às 18h21
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Poeminha Furta-cor

 

Vermelha de raiva

Roxa de ciúme

Branca de medo de amar

Ela encontrou um coraçãozinho no final do arco-íris.



 Escrito por Flávia Regina Melo às 17h21
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Por um jornalismo mais inteliGENTE.

 

7 de abril foi o Dia do Jornalista, data que costuma me provocar a frequente reflexão: escrever, afinal, para quê? O que faz de um ofício abstrato, como o dos jornalistas, que reproduzem a realidade, reelaborando-a por meio de uma imensa variedade de filtros, visões de mundo, ângulos morais, culturais, sociais, uma atividade capaz de contribuir para que, de modo elementar, o mundo seja melhor? Como uma atividade - cujo produto real, a informação, não é palpável e vai muito além do papel dos jornais e revistas, das fitas de vídeo, das postagens na internet, das gravações em áudio - pode ser convertida em insumos para a solução dos problemas que afetam a humanidade?

Grande parte dos meus ex-coleguinhas da imprensa maranhense, por exemplo, se debulham na obsessiva e enjoativa pauta política paroquial, gastando horas preciosas em desfribrilar informações relativas ao maniqueísmo politiqueiro local, afastando-se em milhares de quilômetros da temática relacionada às tragédias que afetam a população do Maranhão - estado pontilhado com registro das mais diversas perversidades sociais: trabalho escravo, prostituição infantil, miséria, conflitos agrários, concentração de renda e outros itens negativos. Quilômetros de papel gastos sem que se chegue a nenhum lugar, quando a Pauta que pauta o Jornalismo é justamente a função social da profissão.

O modo industrial de informar apenas caracteriza a notícia como um produto a mais, subordinado-a às mesmas técnicas funcionalistas ditadas pelo mercado: embalagem, produção em série, lucro, concorrência e todo um manual de instrução para a montagem dos aparelhos que servem a várias finalidades, digamos, com o necessário eufemismo, menos nobres. As parcas iniciativas em favor de uma concepção de mundo mais justo, de uma sociedade sustentável, ao invés de receberam a cobertura urgente e necessária em tempos de crise global do modelo vigente, viraram motivo de chacota por parte dos jornalistas da midiota, a exemplo do que li em alguns blogs locais sobre o Fórum Social Mundial 2009.

Mesmo sentindo asco das práticas comerciais promíscuas do jornalismo, enfrentei a mais difícil experiência da minha vida profissional, entre o final de 2004 até 2006, tendo sido triturada como um boi de piranha. Dela, obtive a mesma conclusão de Marilene Fellinto: "Não me ajusto ao jogo de blefes e cartas marcadas que é o jornalismo contemporâneo".

No Brasil convencionou-se achar que não existe conselho bom. Eu, que sempre recorro aos meus sábios conselheiros, sugiro aos ex-coleguinhas que adotem a frase de ordem dos manifestantes (mais de 150 organizações sindicais, ambientalistas, anti-guerra, de combate à pobreza e atuantes nos mais variados aspectos sociais) da véspera da recente reunião do G-20, em Londres: Put People First!  Ao escreverem, coloquem as pessoas em primeiro lugar e não os seus interesses financeiros.

 



 Escrito por Flávia Regina Melo às 12h23
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  BRASIL, Nordeste, SAO LUIS, Mulher


 


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